– Adaptação em graphic novel por Mario Cau
– Versão escrita por Charles Perrault

"Pele de asno" por Mario Cau

"Pele de asno" por Mario Cau

Por trás dos mais belos contos de fadas, existem mistérios que vão muito além de maçãs envenenadas, madrastas malvadas e lobos falantes. Poucos sabem a história e a origem dessas fábulas que, por muitas vezes, passam longe das versões açucaradas dos dias de hoje.

Este quarto volume da coleção (a)moral da história traz uma versão de Pele de Asno, um conto que, apesar de não ser tão popular quanto tantos outros presentes em nossa infância, apresenta uma narrativa envolvente e uma trama polêmica, sendo de fato uma leitura  impressionante para adultos e pouco aconselhável para embalar o sono das crianças.

A história se passa em um reino muito rico e próspero, onde um rei e uma rainha são exemplos vivos de beleza, harmonia e perfeição. Desse matrimônio, nasceu uma encantadora menina que trouxe ainda mais felicidade para o casal. No entanto, a morte inesperada da jovem rainha acarretaria uma tragédia ainda maior. Para atender ao último pedido de sua esposa, o rei só poderia se casar novamente se encontrasse uma moça mais bela e mais sábia. Após uma busca incessante, o rei finalmente encontra a única jovem que possuía tais tributos: sua própria filha.

A narrativa de Charles Perrault é cheia de reviravoltas e conta com uma princesa que, diferentemente de outras mais conhecidas, é ativa, ágil, desembaraçada e não fica esperando seu príncipe encantado. Portanto, resta a Pele de Asno somente a conquista de sua própria felicidade.

Perrault (1628-1703) foi um grande escritor e poeta francês. Foi o pioneiro na arte de adaptar as antigas histórias de cultura oral para a literatura. Seus contos mais conhecidos são Chapeuzinho Vermelho, A bela adormecida, O gato de botas, Cinderela, Barba Azul e Pele de Asno. Por tudo isso, foi merecidamente consagrado como “o pai da literatura infantil”.

As ilustrações são do paulista Mario Cau, formado em Artes Plásticas pela Unicamp, trabalha com projetos de design diversificados. Atua constantemente no segmento de quadrinhos independentes, como também realiza consultoria visual de projetos sem deixar de se dedicar à sua paixão – o ensino de desenho.

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Posfácio didático

Apesar de ser considerada uma trama companheira de Cinderela, Pele de Asno traz uma história que permanece desconhecida por muitos. O conto tem pouco destaque no cenário dos contos de fada em grande parte devido à conotação sexual e incestuosa de sua narrativa. Enquanto a trama de Cinderela é movida pela inveja da madrasta e das irmãs, Pele de Asno é instigada pelo desejo sexual de seu pai, e essa atitude censurável afasta a filha de casa.

No conto de Cinderela, a heroína sofre pela falta de amor e afeição maternos, em Pele de Asno ela sofre justamente pelo contrário: o excesso de amor e afeição por parte de seu pai que, na falta da presença materna, se sente liberado para perseguir de modo erótico sua própria filha. Justifica-se, portanto, a supressão do conto no universo infantil por sua temática de desejo incestuoso, tão polêmica para os adultos quanto desaconselhável para ser adaptado para livros infantis.

Apesar de levantar tais questões, Pele de Asno se destaca por apresentar uma heroína fora dos padrões: ativa, corajosa e vigorosa. Enquanto Cinderela sofre humilhações e posteriormente é agraciada com presentes, Pele de Asno prima por deixar clara sua vontade e capacidade de resistir ao pai, foge de casa e passa a viver num mundo totalmente diferente, em que seu modo de lidar com as adversidades a aproxima novamente da vida na realeza.

Pode-se justificar o desaparecimento de Pele de Asno como uma reprovação da sociedade em divulgar o questionamento da autoridade paterna e a justificativa para a desobediência dos filhos, como também pelas questões raciais, ao se referir a jovem princesa como detentora de uma pele pura e alva, em contraposição à pele escura e impura da superfície do asno.

No entanto, o conto Pele de Asno oferece uma chance única de reflexão sobre a complexa relação entre pai e filha, mostrando que os obstáculos encontrados no caminho da princesa não foram suficientes para que ela desistisse da busca por seu verdadeiro desejo de felicidade.

Por Juliana Pitanga

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