– Adaptação em graphic novel por Eloar Guazzelli
– Versão escrita por Charles Perrault

Capa do livro "Barba Azul", por Guazelli

Capa do livro "Barba Azul", por Guazelli

Todo mundo conhece um conto de fadas de Perrault, geralmente em sua versão “amenizada”, transformada em história de princesa que encontra seu príncipe e vive feliz para sempre. Mas algumas histórias não se podem adocicar, não sem mudar completamente seu enredo. Barba Azul é uma delas. Era uma vez um homem aparentemente incompreendido por todos. Seu único pecado, ao que parece, é ser dono de uma barba literalmente azul. Ah, e claro: todas as mulheres com quem já se casou desapareceram sem deixar vestígios.

Barba Azul foi publicado pela primeira vez em 1697, em um coletânea que também incluía A Bela Adormecida, Chapeuzinho Vermelho, O Gato de Botas e Cinderela. Conto de fadas com poucos elementos mágicos, Barba Azul se apoia apenas no terror inspirado por seu personagem título, um verdadeiro monstro, mas completamente humano. Personagem que, dizem, pode ter sido inspirado em pessoa real. Terror assim madrasta nenhuma consegue imitar.

Charles Perrault, nascido na França em 1628, foi o primeiro a transformar contos de fada populares em literatura. Chapeuzinho Vermelho, A Bela Adormecida e O Gato de Botas, alguns de seus contos mais conhecidos, foram todos inspirados em histórias folclóricas, mas viraram clássicos que sobrevivem até os nossos dias, graças ao dom de Perrault para retratar o mágico e a fantasia. Filho de burgueses, Charles Perrault ingressou no serviço público antes de se dedicar à escrita. Morreu aos 75 anos, em 1703.

Eloar Guazzelli, gaúcho da cidade de Vacarias, nasceu em 1962. Está no mundo dos quadrinhos desde os anos 1990, e o sucesso de sua carreira é comprovado pelos prêmios que ganhou em diversos eventos brasileiros e internacionais, incluindo o Salão Internacional de Piracicaba (1991, 1992 e 1994), o troféu HQ Mix (1994), e o Yomiuri International Cartoon Contest (1991). Seu trabalho, que também o levou a festivais da Europa, da Ásia e da América Latina, pode ser conferido nas revistas Dundun, Animal e Mil Perigos. Guazzelli mora em Porto Alegre.

Posfácio didático

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O arquétipo do conto de fadas inclui elementos mágicos, fantasiosos. Uma bruxa, uma maçã envenenada, uma comunidade de anões; o cabelo que cresce até alcançar o comprimento de uma torre; uma princesa que desperta de um sono amaldiçoado graças ao beijo de um príncipe. Barba Azul é, em comparação, pouco sobrenatural. Na verdade, a barba do protagonista e a chave que guarda seu terrível segredo são os únicos aspectos do conto a ir além da compreensão humana. De resto, a história do serial killer de esposas e da inocente mocinha que finalmente o derrota lembra mais um filme de terror passado na Idade Média.

A história clássica da mulher que se deixa levar pelo charme de um pretendente – no caso, a semana de diversão e festas no palácio de Barba Azul – e se casa com ele ignorando todos os sinais contrários – o desaparecimento das muitas ex-mulheres do noivo – é narrada, aqui, ponto a ponto, com direito ao resgate da pobre donzela por heroicos cavalheiros que chegam na hora certa e salvam o dia.

A narrativa pode ser vista também como um alerta contra a curiosidade, já que é o desejo de descobrir o que está oculto por trás da porta proibida que sela o destino da protagonista sem nome, assim como Eva selou seu destino ao aceitar o fruto proibido no Jardim do Éden, e Psique o seu ao insistir em ver o rosto de Eros. A curiosidade vem transformando mulheres em vítimas desde o nascimento da tradição de contar histórias.

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Tudo fica ainda mais sinistro quando se considera a hipótese de que Barba Azul, o personagem, pode ter sido inspirado em alguém real. O “candidato” mais provável é o cavaleiro bretão Gilles de Ralais, companheiro de batalha de Joana D’Arc, que morreu na forca em 1440 após confessar o assassinato de diversas crianças. Porém, como maridos violentos não faltam na história europeia da Idade Média, não é possível descobrir hoje quem foi o principal culpado, ou se a inspiração veio de vários exemplos da vida real. Até o rei Henrique VIII, da Inglaterra, é famoso por ter ordenado a morte de diversas de suas esposas.

Não se conhece uma versão de Barba Azul anterior ao conto de Perrault, mas acredita-se que tenha existido. A história conhecida, apresentada aqui, tem alguns furos de roteiro. Os convidados recebidos pela protagonista não são mencionados depois que ela os abandona para encontrar a fechadura na qual se encaixaria a chave. É também difícil imaginar que o assassino aceitasse o cândido pedido de um quarto de hora para uma última oração. De qualquer forma, o terror permanece. O que fica na memória do leitor é o quarto coberto de cadáveres e sangue, e a truculência de Barba Azul. Bons sonhos.

Por Clara Vidal

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