- Adaptação em graphic novel por Jozz

jozz4A história de A Bela e a Fera, como conto de fadas infantil, é uma das mais conhecidas mundialmente e dificilmente precisaria de uma orelha explicativa. Porém, poucos conhecem a versão estendida, desprovida das músicas e louças falantes do Walt Disney, além da origem da fábula e suas primeiras interpretações.

Originalmente criada em 1740, inspirada no conto mitológico de Eros e Psique, não tinha como objetivo o público infantil, muito menos a pretensão de se tornar um dos mais famosos contos de fadas. Ao contrário das versões mais atuais – a que consta neste volume é uma de 1889, presente no livro Andrew Lang’s Blue Fairy Book e escrito pela francesa Madame de Villeneuve –, a Fera não se transforma em príncipe, e o final feliz não é superficialmente focado na vitória da beleza.

Neste volume da coleção, poderemos, por meio da versão completa da história, do posfácio explicativo e da adaptação em graphic novel feita por Jozz, ver as entrelinhas da história, mascaradas pelas animações e versões infantis. Apesar de ainda ser uma interpretação romantizada, podemos notar detalhes como o fato de o pai da Bela tê-la levado à Fera em troca de sua própria vida sem muito peso na consciência; o fato de, em troca, aceitar jóias e riquezas para levar às outras filhas; além do fato de o final feliz se basear na transformação da Fera no príncipe dos sonhos de Bela e na satisfação da família ante a riqueza oferecida.

Jorge Otávio Zugliani, ou Jozz, autor das ilustrações, é designer gráfico formado pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, cursou a Quanta Academia de Artes, trabalhou em editoras de livros e revistas, além de produtoras de TV e cinema. Além disso, lançou o livro O Circo de Lucca, uma HQ em metalinguagem, pela Editora Devir e edita a revista Zine Royale de quadrinhos e ilustrações. Recentemente, ganhou o Troféu HQMIX na categoria “Desenhista Revelação de 2007″.

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Posfácio didático

A Bela e a Fera, adaptada como fábula infantil para diversos livros e um dos mais famosos desenhos da Disney, originalmente não possuía o mínimo de interesse em alcançar o público infantil. Pelo contrário, a história tratava de assuntos adultos e polêmicos, como a superficialidade de sentimento e visão das pessoas em relação ao mundo. A primeira versão de que temos conhecimento, criada pela francesa Madame Gabrielle de Villeneuve, foi voltada para pessoas da côrte e amigos, que tinham o costume de compartilhar histórias como forma de entretenimento e teve como inspiração a lenda de Eros e Psique.

Eros e Psique é uma lenda mitológica que conta a história de Psique, uma belíssima mortal, a deusa Vênus e seu filho Eros (também conhecido como Cupido). Vênus, levada pela inveja que sentia da beleza da menina, manda o filho usar sua flecha para fazer com que Psique se apaixonasse pela criatura mais vil do planeta. Porém, diante de Psique, Eros se apaixona e não cumpre as ordens da mãe. Acaba se desenvolvendo uma intensa relação de paixão entre os dois, porém, Eros lhe exige que nunca fosse visto pela amada, que aceita, por se sentir plenamente realizada com seu casamento. Um dia, levada a acreditar pelas irmãs invejosas que poderia estar casada com um monstro, Psique, enquanto Eros dormia, acendeu uma lamparina e viu a mais bela criatura já vista. Eros, porém, acorda, declara que “O amor não pode viver sem confiança” e vai embora para não voltar mais. Entretanto, acaba voltando, após fazê-la passar por uma série de provações, e os dois se casam e são “felizes para sempre”.

Como podemos ver, apesar da felicidade em sua relação com Eros, o medo de estar com um “monstro” foi maior que seu real sentimento, e Psique traiu a confiança do amado. Este, apesar de sua repressão em relação à atitude de Psique, acaba voltando, casando e tornando-a imortal, nos levando a mais um final feliz, em que a beleza prevalece. O mesmo acontece em A Bela e a Fera, pois, apesar de a Bela aceitar se casar com a Fera como ela é, o final só se torna plenamente feliz quando esta se transforma no belo príncipe que Bela sempre buscou em seus sonhos.

Embora os textos sejam antigos – Eros e Psique foi publicado em inglês em 1566 e a primeira versão de A Bela e a Fera foi descoberta em 1740 –, não há como não transportá-los para a atualidade. A mentalidade popular é mostrada em livros e filmes, e esses ajudam a passar esse tipo de valor como ideologia. Tanto em livros infantis ou adultos, podemos notar a rejeição e censura em relação às diferenças e o estranhamento ante a aceitação da mesma, como o clássico “beijo no sapo” dos contos ou o casamento estritamente entre pessoas de aparência e situação social parecidos.

Por Paula de Carvalho

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